Quando você pensa em Renascimento, provavelmente imagina Florença do século XV, Leonardo da Vinci e Michelangelo, certo? E se eu dissesse que houve um renascimento cultural e intelectual trezentos anos antes, bem no coração da chamada “Idade das Trevas”? Essa é exatamente a provocação que Charles Homer Haskins lançou em 1927 com sua obra revolucionária.
Este livro não apenas desafiou décadas de preconceito histórico, mas redefiniu completamente como encaramos o período medieval. Para nós, leitores apaixonados por história, esta obra representa um marco: o momento em que a historiografia moderna finalmente reconheceu que a Idade Média não foi um vazio intelectual entre Roma e a Renascença italiana.
A imagem da capa desse artigo e as demais presentes nele foram feitas por IA e são meramente decorativas, não sei se representam com precisão histórica os elementos retratados.
O Autor e Seu Legado na Historiografia
Charles Homer Haskins (1870-1937) não foi apenas mais um historiador acadêmico – ele foi um verdadeiro pioneiro que transformou o estudo da Idade Média nos Estados Unidos. Formado em Harvard aos 16 anos (sim, você leu certo!), Haskins tornou-se o primeiro americano a obter reconhecimento internacional como medievalista de primeira linha.
Sua trajetória acadêmica é impressionante por várias razões:
- Professor em Harvard por décadas, onde formou gerações de medievalistas americanos
- Conselheiro do Presidente Woodrow Wilson na Conferência de Paz de Paris após a Primeira Guerra Mundial
- Fundador do Medieval Academy of America em 1925
- Autor de obras seminais sobre instituições normandas e transmissão do conhecimento clássico
O que torna Haskins especialmente relevante é seu método rigoroso de análise das fontes primárias. Ele não se contentava com generalizações ou com a repetição de mitos históricos. Ao contrário, mergulhava profundamente nos manuscritos latinos, nas cartas medievais, nos registros universitários e nos tratados científicos da época. Essa abordagem meticulosa permitiu que ele identificasse padrões de florescimento intelectual que outros historiadores simplesmente não haviam percebido – ou escolheram ignorar.
Haskins escreveu “The Renaissance of the Twelfth Century” em um período crucial da historiografia. Na década de 1920, a visão dominante ainda era influenciada pelo preconceito renascentista, que pintava a Idade Média como um período de estagnação total. Jacob Burckhardt e outros haviam estabelecido a narrativa de que apenas no século XV a Europa “acordou” do sono medieval. Haskins ousou discordar – e tinha as evidências para provar seu ponto.
A Tese Central do Livro: Uma Quebra de Paradigmas

A tese de Haskins é ao mesmo tempo simples e revolucionária: o século XII foi palco de um verdadeiro renascimento intelectual, cultural e artístico, caracterizado pela redescoberta e assimilação da cultura clássica, pelo florescimento das universidades, pela revolução do direito romano e canônico, e pelo surgimento de uma literatura vernácula sofisticada.
Vamos destrinchar os pilares dessa argumentação:
1. A Redescoberta dos Clássicos
Haskins demonstra que o século XII viu uma explosão de traduções do grego e do árabe para o latim. Obras de Aristóteles, Euclides, Ptolomeu e Galeno chegaram à Europa Ocidental através da Espanha e da Sicília. Não foi no século XV que os europeus “redescobriram” os clássicos – isso aconteceu trezentos anos antes!
2. O Nascimento das Universidades
As primeiras universidades europeias – Bolonha, Paris, Oxford – emergiram exatamente neste período. Haskins mostra como essas instituições criaram um sistema de ensino estruturado, com currículos definidos, métodos de debate escolástico e graus acadêmicos. A universidade medieval não era uma imitação pálida de algo que viria depois; era uma inovação genuína do século XII.
3. A Revolução Legal
O ressurgimento do estudo do Direito Romano através do Corpus Juris Civilis de Justiniano transformou completamente os sistemas legais europeus. Simultaneamente, o Direito Canônico foi sistematizado, culminando no Decretum de Graciano (c. 1140). Essas não eram simples curiosidades acadêmicas – elas moldaram as estruturas políticas e sociais por séculos.
4. O Florescimento Cultural e Literário
Dos poemas goliárdicos às canções dos trovadores provençais, da poesia latina sofisticada aos primeiros romances em língua vernácula, o século XII produziu uma riqueza literária impressionante. Haskins argumenta que essa produção cultural rivalizava – e em alguns aspectos superava – o que veio depois.
A quebra de paradigma proposta por Haskins reside em demonstrar que o progresso intelectual não foi linear nem único. Houve múltiplos “renascimentos” ao longo da história medieval, e o do século XII foi particularmente vibrante e transformador.
A Riqueza das Fontes Utilizadas: Por Que Este Livro É Confiável
Uma das grandes forças de “The Renaissance of the Twelfth Century” está na impressionante variedade e qualidade das fontes primárias citadas. Haskins não constrói sua argumentação sobre teorias abstratas ou suposições – ele a fundamenta em documentos concretos da época.
Tipos de Fontes Exploradas:
- Manuscritos Científicos e Filosóficos
- Traduções medievais de Aristóteles por Gerard de Cremona
- Tratados matemáticos de Adelardo de Bath
- Textos médicos da Escola de Salerno
- Documentos Universitários
- Cartas de estudantes e professores
- Estatutos das primeiras universidades
- Registros de disputas acadêmicas
- Literatura e Poesia
- Carmina Burana e outros poemas goliárdicos
- Crônicas monásticas e seculares
- Correspondências de intelectuais como João de Salisbury e Pedro, o Venerável
- Fontes Legais
- Comentários sobre o Corpus Juris Civilis
- Coleções de direito canônico
- Documentos de cortes reais e eclesiásticas
- Registros Arquitetônicos e Artísticos
- Descrições de construções das grandes catedrais góticas
- Inventários de bibliotecas monásticas
- Catálogos de iluminuras e manuscritos
Por que isso importa para você, leitor? Porque quando um historiador baseia suas conclusões em centenas de fontes primárias diversificadas, você pode confiar que não está lendo opinião pessoal ou especulação. Está lendo análise histórica sólida, fundamentada em evidências concretas do período.
Haskins também demonstra familiaridade com a historiografia secundária de seu tempo, dialogando com outros estudiosos e posicionando sua obra dentro dos debates acadêmicos vigentes. Ele não ignora as interpretações alternativas; ele as confronta com dados.
O Estilo de Escrita e a Leitura: É Para Iniciantes ou Especialistas?

Aqui chegamos a um ponto crucial para quem está considerando adquirir este livro: para quem Haskins escreveu?
A resposta honesta é: para leitores academicamente inclinados. Não se trata de um livro de divulgação popular no estilo contemporâneo. Haskins escreve com a expectativa de que seu leitor tenha familiaridade básica com:
- Latim (muitas citações não são traduzidas)
- Contexto histórico medieval (ele não para para explicar quem foi Carlos Magno ou o que foi o Sacro Império)
- Terminologia acadêmica (conceitos como “escolástica”, “trivium” e “quadrivium” são usados livremente)
Características do Estilo:
Pontos que podem desafiar leitores iniciantes:
- Densidade informacional elevada
- Longos trechos em latim sem tradução
- Pressuposição de conhecimento prévio sobre instituições medievais
- Estilo acadêmico da década de 1920, mais formal que as obras atuais
Pontos que encantam leitores experientes:
- Riqueza de detalhes e citações de fontes primárias
- Análise nuançada que evita simplificações
- Conexões sofisticadas entre diferentes aspectos culturais
- Demonstração clara da metodologia histórica
Minha recomendação: Se você é um leitor iniciante no estudo da Idade Média, considere primeiro obras introdutórias sobre o período (como “A Civilização do Ocidente Medieval” de Jacques Le Goff ou “A Idade Média: Nascimento do Ocidente” de Hilário Franco Júnior). Se você já possui uma base sólida e quer aprofundar seu conhecimento sobre um dos períodos mais fascinantes da história medieval, este livro é indispensável.
Pontos Fortes e Pontos de Discussão
Nenhuma obra historiográfica, por mais brilhante que seja, está isenta de críticas ou debates. Vamos analisar com honestidade os méritos e as limitações do trabalho de Haskins.
Pontos Fortes Incontestáveis:
- Originalidade da Tese
- Em 1927, argumentar por um “renascimento medieval” era revolucionário
- Abriu caminho para toda uma geração de estudos sobre as “renascenças medievais”
- Rigor Metodológico
- Uso extensivo de fontes primárias
- Análise cuidadosa de manuscritos e documentos
- Contextualização adequada das evidências
- Amplitude Temática
- Cobre ciência, direito, literatura, filosofia e educação
- Demonstra as conexões entre diferentes esferas culturais
- Não se limita a uma única região ou aspecto
- Impacto Duradouro
- Continua sendo citado e debatido quase um século depois
- Influenciou profundamente os estudos medievais
- Estabeleceu novos padrões de pesquisa na área
Pontos Que Geram Discussão:
- Limitações Geográficas
- Foco primário na França, Inglaterra e Itália
- Menor atenção à Península Ibérica e Europa Oriental
- O “renascimento” descrito é principalmente da Europa Ocidental
- Questões de Gênero
- Pouca atenção ao papel das mulheres no período
- As figuras femininas (Hildegarda de Bingen, Leonor da Aquitânia) aparecem marginalmente
- O Conceito de “Renascimento”
- Alguns historiadores questionam se o termo “renascimento” é apropriado
- Pode sugerir uma ruptura que não existiu
- Debate se houve continuidade ou transformação radical
- Idade da Obra
- Escrita antes de muitas descobertas arqueológicas importantes
- Pesquisas posteriores nuançaram ou revisaram alguns argumentos
- A historiografia avançou significativamente desde 1927
Tabela Comparativa: Haskins e Outras Abordagens
| Aspecto | Haskins (1927) | Historiografia Tradicional (pré-1927) | Estudos Contemporâneos |
|---|---|---|---|
| Visão do Século XII | Período de renascimento intelectual | Parte das “Trevas Medievais” | Múltiplos renascimentos medievais |
| Papel das Universidades | Inovação crucial e transformadora | Preparação para o “verdadeiro” conhecimento | Centros de produção e disseminação do saber |
| Relação com Clássicos | Redescoberta ativa e criativa | Perda do conhecimento antigo | Transmissão contínua com transformações |
| Importância Cultural | Fundamental para entender a Europa | Período de transição sem valor próprio | Momento-chave da construção da identidade europeia |
A Resenha em Detalhes: O Que o Livro Realmente Oferece
Agora que estabelecemos o contexto e a importância da obra, vamos mergulhar no conteúdo específico que você encontrará ao abrir “The Renaissance of the Twelfth Century”.
Estrutura da Obra:
O livro está organizado em capítulos temáticos que exploram diferentes facetas do renascimento do século XII:
1. Os Precursores e o Contexto Histórico
- Haskins estabelece as bases: a estabilidade política relativa, o crescimento econômico e urbano
- Análise das condições que permitiram o florescimento intelectual
- O papel das reformas gregorianas e do movimento monástico
2. As Traduções e a Recepção do Conhecimento Clássico
- Detalha o trabalho dos grandes tradutores: Gerard de Cremona, Adelardo de Bath, James de Veneza
- Mostra como Toledo, Salerno e a Sicília funcionaram como pontes culturais
- Explica o impacto das traduções de Aristóteles na filosofia escolástica
3. O Desenvolvimento das Universidades
- Descreve a evolução de Bolonha (direito), Paris (teologia e artes) e Oxford
- Analisa a estrutura corporativa das universidades
- Discute os métodos de ensino: lectio, disputatio e quaestio
4. A Revolução no Direito
- Examina o renascimento do direito romano através da escola dos glosadores
- Aborda a sistematização do direito canônico
- Conecta as mudanças legais às transformações políticas e sociais
5. A Literatura Latina e Vernácula
- Explora a poesia goliárdica e sua crítica social
- Analisa o amor cortês e a literatura trovadoresca
- Discute as primeiras manifestações das literaturas nacionais
6. Ciência e Filosofia Natural
- Detalha os avanços em matemática, astronomia e medicina
- Mostra como a ciência árabe influenciou o pensamento europeu
- Examina as primeiras tentativas de reconciliar razão e fé
Insights Valiosos Que Você Encontrará:

- A internacionalidade do movimento intelectual: Estudantes viajavam por toda a Europa, criando uma verdadeira “comunidade internacional de intelectuais” que usava o latim como língua franca.
- O papel da Igreja como preservadora e inovadora: Contrariando o mito de uma Igreja obscurantista, Haskins mostra como instituições eclesiásticas foram cruciais para o desenvolvimento intelectual.
- A complexidade da transmissão cultural: O conhecimento não veio apenas da “redescoberta” dos clássicos gregos, mas também das inovações árabes e da criatividade medieval própria.
- A importância do método: O século XII não apenas absorveu conhecimento; desenvolveu novos métodos de análise, questionamento e debate que moldaram a tradição intelectual ocidental.
Citações Memoráveis do Livro:
Haskins nos presenteia com passagens que capturam o espírito da época:
- Sobre os estudantes medievais: demonstra através de cartas como eles enfrentavam os mesmos dilemas que estudantes modernos (falta de dinheiro, pedidos aos pais, queixas sobre professores)
- Sobre o entusiasmo intelectual: documenta a excitação que a chegada de novos textos de Aristóteles causava nos centros universitários
- Sobre a universalidade da cultura: mostra como pensadores de diferentes regiões correspondiam-se e debatiam através de fronteiras
Como Este Livro Se Encaixa no Panorama Maior dos Estudos Medievais
Para apreciar plenamente “The Renaissance of the Twelfth Century”, é útil entender sua posição dentro da historiografia medieval mais ampla.
Antes de Haskins:
A narrativa dominante, influenciada por pensadores renascentistas e iluministas, dividia a história europeia em:
- Antiguidade Clássica: período de glória (Grécia e Roma)
- Idade Média: mil anos de trevas e estagnação
- Renascimento: despertar da razão e da cultura
A Contribuição de Haskins:
Sua obra foi uma das primeiras a desafiar sistematicamente essa narrativa simplista, demonstrando que:
- A Idade Média teve seus próprios períodos de florescimento
- O “Renascimento” do século XV não surgiu do nada
- Houve continuidade e desenvolvimento ao longo de todo o período medieval
Depois de Haskins:
Sua obra inspirou toda uma escola de pensamento:
- Jacques Le Goff e a “Idade Média” como construção historiográfica
- Estudos sobre outros “renascimentos”: carolíngio, otoniano, etc.
- Revalorização geral do período medieval nos estudos históricos
Obras Complementares Essenciais:
| Livro | Autor | Como Complementa Haskins |
|---|---|---|
| The Making of the Middle Ages | R.W. Southern | Aprofunda aspectos culturais e religiosos do século XII |
| Medieval Thought from Augustine to Ockham | Gordon Leff | Expande a discussão filosófica iniciada por Haskins |
| The Gothic Cathedral | Otto von Simson | Conecta o renascimento intelectual à revolução arquitetônica |
| The Schools of Medieval England | A.F. Leach | Detalha o sistema educacional que Haskins apenas esboça |
| Universities in the Middle Ages | Hilde de Ridder-Symoens | Atualiza e expande a análise das universidades medievais |
Dicas Práticas Para Aproveitar Melhor Sua Leitura
Como este não é um livro simples, aqui vão algumas estratégias para maximizar seu aprendizado:
1. Contextualize-se antes de começar:
- Tenha à mão um atlas histórico da Europa medieval
- Familiarize-se com os principais eventos do século XII
- Conheça os personagens centrais: Abelardo, Tomás Becket, Leonor da Aquitânia
2. Leia com ferramentas auxiliares:
- Um bom dicionário de latim pode ajudar com as citações
- Mantenha uma linha do tempo para situar os eventos
- Faça anotações sobre os personagens e obras mencionados
3. Não tente ler linearmente de uma vez:
- Os capítulos são relativamente independentes
- Você pode começar pelo tema que mais lhe interessa
- Volte aos capítulos anteriores quando necessário
4. Complemente com fontes primárias:
- Leia alguns dos textos que Haskins menciona (muitos têm traduções disponíveis)
- Explore as cartas de Abelardo e Heloísa
- Conheça a poesia dos trovadores
5. Conecte com o presente:
- Pense em como as universidades modernas devem ao modelo medieval
- Reflita sobre a importância do diálogo intercultural
- Considere paralelos com nossos próprios “renascimentos” intelectuais
Qual Será Sua Próxima Descoberta Sobre a Verdadeira Idade Média?
Se você chegou até aqui, já compreendeu que “The Renaissance of the Twelfth Century” não é apenas mais um livro de história – é um convite para repensar tudo o que você achava que sabia sobre a Idade Média. Charles Haskins nos legou uma obra que permanece relevante quase um século depois, não porque seja perfeita ou definitiva, mas porque é honesta, rigorosa e profundamente transformadora.
Para nós, amantes da história medieval, este livro representa um marco essencial. É aquele tipo de leitura que não apenas informa, mas transforma nossa compreensão de um período inteiro. Cada página desafia preconceitos, cada citação abre janelas para um mundo intelectual vibrante que nos foi negado por séculos de má historiografia.
A escolha de ler Haskins é a escolha de se juntar a uma tradição de estudiosos sérios que preferem a evidência à especulação, os documentos aos mitos, o conhecimento profundo às generalizações rasas. É reconhecer que entender a Idade Média exige mais do que assistir a séries de TV ou repetir clichês – exige dedicação, leitura cuidadosa e vontade de questionar narrativas estabelecidas.
Então, qual será seu próximo passo nessa jornada? Que outros segredos do período medieval você está pronto para descobrir? Que outras obras fundamentais esperam por você nas estantes (físicas ou digitais) para revolucionar sua compreensão da história?
A Idade Média aguarda, repleta de conhecimento, cultura e realizações que a “história popular” insiste em ignorar. A questão é: você está pronto para conhecê-la de verdade?
Perguntas e Respostas

O livro de Haskins está disponível em português?
Infelizmente, “The Renaissance of the Twelfth Century” nunca recebeu uma tradução oficial para o português. A obra permanece disponível apenas em inglês, o que representa uma lacuna significativa na bibliografia medieval acessível ao público brasileiro. Para leitores que dominam o inglês, existem diversas edições disponíveis, incluindo versões digitais e reimpressões recentes. A ausência de tradução torna ainda mais importante a divulgação de análises e resenhas em português que possam apresentar as ideias centrais da obra ao público brasileiro interessado em história medieval.
Charles Haskins estava certo sobre o “Renascimento do Século XII”?
A tese central de Haskins foi amplamente validada pela historiografia posterior, embora com nuances importantes. Historiadores modernos reconhecem que o século XII foi de fato um período de intenso florescimento intelectual e cultural, confirmando as observações de Haskins sobre as traduções, universidades e produção literária. No entanto, pesquisas subsequentes revelaram que houve múltiplos “renascimentos” ao longo da Idade Média (carolíngio, otoniano), sugerindo que o fenômeno não foi único. A contribuição duradoura de Haskins não foi apenas identificar esse período específico, mas demonstrar metodologicamente que a Idade Média teve dinâmicas próprias de crescimento e inovação, destruindo definitivamente o mito das “trevas medievais”.
Preciso saber latim para ler este livro?
Embora conhecimento de latim seja certamente útil, não é estritamente necessário para compreender os argumentos principais de Haskins. O autor inclui muitas citações em latim sem tradução, refletindo as convenções acadêmicas de sua época, mas o contexto geralmente permite entender o ponto que está sendo ilustrado. Leitores sem conhecimento de latim podem optar por: focar nos argumentos e análises de Haskins em inglês, usar ferramentas de tradução online para as passagens em latim que considerem cruciais, ou simplesmente aceitar que algumas citações permanecerão opacas sem prejudicar a compreensão geral da obra. O mais importante é a análise histórica que Haskins desenvolve, não as citações em si.
Este livro é adequado para quem está começando a estudar Idade Média?
“The Renaissance of the Twelfth Century” não é a melhor escolha para iniciantes absolutos no estudo da Idade Média. O livro pressupõe familiaridade com eventos, instituições e personagens do período, além de conceitos historiográficos básicos. Leitores iniciantes se beneficiarão mais começando com obras introdutórias e panorâmicas, como as de Jacques Le Goff, Hilário Franco Júnior ou Régine Pernoud, que estabelecem o contexto geral do período medieval. Após construir uma base sólida de conhecimento, Haskins se torna não apenas acessível, mas absolutamente fascinante. Pense nele como um livro de “nível intermediário a avançado” – você precisa conhecer o alfabeto antes de ler poesia complexa.
Como o trabalho de Haskins influenciou os estudos medievais posteriores?
A influência de Haskins na medievalística moderna foi profunda e multifacetada. Primeiro, ele estabeleceu um novo padrão metodológico de trabalho rigoroso com fontes primárias, inspirando gerações de pesquisadores a buscar evidências concretas para suas teses. Segundo, sua obra abriu caminho para o estudo de outros “renascimentos” medievais e para uma reavaliação geral do período, contribuindo para superar preconceitos iluministas e renascentistas. Terceiro, ajudou a legitimar os estudos medievais como campo acadêmico sério nos Estados Unidos, onde antes era marginalizado. Historiadores como Richard Southern, Jacques Le Goff e Ernst Robert Curtius desenvolveram seus trabalhos em diálogo direto (concordando ou discordando) com as teses de Haskins, demonstrando sua centralidade no debate acadêmico.
Quais são as principais críticas modernas à obra de Haskins?
As críticas contemporâneas à obra de Haskins geralmente não questionam sua tese fundamental, mas apontam limitações de escopo e perspectiva. Historiadores modernos observam que Haskins focou excessivamente na elite intelectual masculina, negligenciando o papel das mulheres e das classes populares no período. Além disso, sua análise é geograficamente limitada, concentrando-se na França, Inglaterra e Itália, com menos atenção à Península Ibérica (crucial para as traduções do árabe), Bizâncio e Europa Oriental. Estudos recentes também questionam se o termo “renascimento” é o mais apropriado, sugerindo que pode implicar ruptura onde houve continuidade. Finalmente, pesquisas arqueológicas e documentais posteriores a 1927 revelaram nuances e complexidades que Haskins não poderia conhecer, exigindo atualização constante de suas conclusões.
Vale a pena ler Haskins hoje, quase 100 anos depois da publicação?
Absolutamente sim, por múltiplas razões. Primeiro, como documento historiográfico: ler Haskins permite entender como a historiografia medieval evoluiu e quais foram os debates fundadores do campo. Segundo, pela qualidade da análise: mesmo com as limitações de sua época, Haskins oferece insights valiosos e trabalha com fontes primárias que permanecem relevantes. Terceiro, pelo prazer intelectual: para leitores apaixonados por história, acompanhar o raciocínio de um grande historiador é uma experiência enriquecedora em si mesma. Finalmente, como inspiração metodológica: Haskins demonstra o que significa fazer história rigorosa, baseada em evidências, questionando narrativas estabelecidas. Naturalmente, deve-se complementar a leitura com obras mais recentes que incorporem novas descobertas e perspectivas, mas Haskins permanece uma pedra fundamental para qualquer estudante sério da Idade Média.
