Quando você pensa em mulheres poderosas da Idade Média, qual imagem vem à sua mente? Provavelmente a de donzelas indefesas trancadas em torres, aguardando resgate. Esse é um dos maiores equívocos sobre o período medieval – e Leonor da Aquitânia é a prova viva de que essa narrativa está completamente errada.
Rainha da França, depois da Inglaterra, mãe de Ricardo Coração de Leão, mecenas das artes e figura política central do século XII, Leonor desafia tudo o que nos ensinaram sobre as mulheres medievais. Mas como separar o mito da realidade? Como entender verdadeiramente quem foi essa mulher extraordinária?
A resposta está na obra magistral de Régine Pernoud, uma das mais importantes medievalistas do século XX, que dedicou sua carreira a desconstruir preconceitos sobre a Idade Média e a resgatar o papel feminino na história. Nesta análise, vamos mergulhar profundamente em “Eleanor of Aquitaine” e descobrir por que este livro é uma leitura essencial para todos nós, amantes da história medieval.
A imagem da capa desse artigo e as demais presentes nele foram feitas por IA e são meramente decorativas, não sei se representam com precisão histórica os elementos retratados.
A Tese Central do Livro: Uma Quebra de Paradigmas
O argumento central de Pernoud em “Eleanor of Aquitaine” é revolucionário, mas fundamentado em evidências sólidas: Leonor não foi uma exceção em um mundo de mulheres oprimidas, mas sim o exemplo mais brilhante de um sistema que oferecia às mulheres nobres muito mais poder e autonomia do que os períodos posteriores.
Esta tese desafia diretamente duas narrativas dominantes:
- O mito da progressão linear: A ideia de que as mulheres foram gradualmente conquistando direitos ao longo da história
- O estereótipo da mulher medieval: A visão de que todas as mulheres medievais eram subjugadas e sem voz
Pernoud demonstra, através da vida de Leonor, que:
- Mulheres nobres da Idade Média possuíam e gerenciavam propriedades extensas
- Participavam ativamente de decisões políticas e militares
- Tinham direitos de herança significativos, especialmente no sul da França
- Eram mecenas culturais que moldavam a civilização de sua época
- O direito consuetudinário medieval frequentemente protegia melhor as mulheres do que o Código Napoleônico posterior
Leonor nasceu em 1122, herdeira do Ducado da Aquitânia – um dos territórios mais ricos e extensos da Europa medieval. Aos 15 anos, tornou-se Rainha da França ao casar-se com Luís VII. Após a anulação desse casamento, casou-se com Henrique Plantageneta, que logo se tornaria Henrique II da Inglaterra, fazendo dela Rainha da Inglaterra.
Mas reduzir Leonor a seus casamentos é perder completamente o ponto. Pernoud mostra que:
- Governou a Aquitânia com autoridade própria, não como mera consorte
- Participou da Segunda Cruzada (1147-1149), uma experiência que moldou sua visão política
- Influenciou decisivamente a cultura cortês e o desenvolvimento da literatura trovadoresca
- Agiu como regente da Inglaterra durante as ausências de Ricardo Coração de Leão
- Manteve atividade política mesmo aos 80 anos, negociando tratados e alianças
A Riqueza das Fontes Utilizadas: Por Que este Livro é Confiável

Um dos grandes diferenciais da obra de Pernoud é sua fundamentação documental impecável. Diferentemente de biografias romanceadas ou trabalhos que se apoiam em especulações, este livro constrói seu retrato de Leonor através de:
Fontes Primárias Documentais:
- Cartas e correspondências preservadas nos arquivos franceses e ingleses
- Documentos administrativos do Ducado da Aquitânia e dos reinos da França e Inglaterra
- Crônicas contemporâneas, incluindo relatos de:
- Guilherme de Tiro (sobre a Segunda Cruzada)
- Giraldo de Barri (cronista galês que conheceu a corte inglesa)
- Roger de Hoveden (cronista inglês)
- Gervásio de Cantuária
- Registros eclesiásticos, especialmente relacionados à anulação de seu primeiro casamento
- Poesias trovadorescas dedicadas a Leonor ou compostas sob seu patrocínio
Metodologia Crítica de Pernoud:
- Contextualização rigorosa: Cada documento é situado em seu momento histórico preciso
- Análise comparativa: Fontes são cruzadas para verificar consistência e identificar vieses
- Separação entre fato e lenda: Pernoud distingue claramente o que é comprovado documentalmente do que é tradição posterior
- Atenção aos preconceitos das fontes: Reconhece quando cronistas masculinos demonstram misoginia ou quando há motivações políticas em determinados relatos
Isso significa que, ao ler este livro, você está acessando não a opinião de Pernoud sobre como Leonor “deveria” ter sido, mas sim um retrato construído a partir do que a própria Idade Média nos conta sobre ela.
Comparativo: Abordagens Biográficas de Leonor
| Autor | Abordagem | Ponto Forte | Limitação |
|---|---|---|---|
| Régine Pernoud | Documental e contextual | Rigor histórico, desmistificação | Menos detalhes sobre vida íntima |
| Alison Weir | Narrativa biográfica extensa | Acessibilidade, detalhamento | Algumas especulações dramáticas |
| Amy Kelly | Foco cultural e literário | Análise da cultura cortês | Menos ênfase no político |
| Jean Flori | Análise historiográfica crítica | Questionamento de mitos | Mais acadêmica, menos acessível |
O Estilo de Escrita e a Leitura: É para Iniciantes ou Especialistas?
Uma das maiores virtudes de Pernoud é sua capacidade de escrever para múltiplos públicos simultaneamente. “Eleanor of Aquitaine” é, paradoxalmente, tanto uma obra de rigor acadêmico quanto um livro acessível a leitores iniciantes na história medieval.
Características do Estilo:
- Narrativa fluida: Pernoud conta a história de Leonor de forma cronológica e envolvente, sem sacrificar a precisão
- Contextualização constante: Cada evento é explicado dentro do panorama político e cultural mais amplo
- Ausência de jargão desnecessário: Termos técnicos são explicados quando introduzidos
- Notas explicativas úteis: Informações complementares e referências às fontes sem interromper a leitura principal
- Comparações esclarecedoras: Pernoud frequentemente compara instituições medievais com conceitos modernos para facilitar a compreensão
Para Quem Este Livro é Ideal:
Iniciantes na História Medieval:
- Oferece introdução sólida ao século XII europeu
- Explica o contexto feudal sem simplificações excessivas
- Desmistifica preconceitos comuns sobre o período
Entusiastas Intermediários:
- Aprofunda compreensão sobre o poder feminino medieval
- Apresenta fontes primárias acessíveis
- Conecta eventos políticos com desenvolvimentos culturais
Estudiosos e Pesquisadores:
- Fornece análise crítica das fontes
- Oferece interpretações fundamentadas que podem ser debatidas
- Bibliografia extensa para pesquisas adicionais
Nível de Dificuldade:
Facilidade de Leitura: ⭐⭐⭐⭐ (4/5)
- Requer atenção, mas não conhecimento prévio especializado
Densidade de Informação: ⭐⭐⭐⭐⭐ (5/5)
- Riquíssimo em detalhes históricos e análises
Exigência de Contexto Prévio: ⭐⭐ (2/5)
- Pernoud fornece todo o contexto necessário
Pontos Fortes e Pontos de Discussão

Como toda obra histórica, “Eleanor of Aquitaine” tem seus pontos de excelência e aspectos que geram debate entre historiadores. Uma análise honesta deve reconhecer ambos.
Pontos Fortes Inquestionáveis:
- Fundamentação documental sólida: O trabalho de Pernoud com fontes primárias é exemplar
- Desmistificação efetiva: O livro destrói preconceitos sobre a Idade Média com evidências concretas
- Contextualização política e cultural: Leonor é apresentada dentro da complexidade de sua época
- Análise do poder feminino: Pernoud demonstra as estruturas que permitiam a agência feminina no período
- Equilíbrio entre biografia e história: O livro é tanto sobre Leonor quanto sobre o século XII
- Acessibilidade sem simplificação: Mantém rigor acadêmico em linguagem acessível
- Influência historiográfica duradoura: A obra continua sendo referência décadas após publicação
Pontos que Geram Debate:
- Idealização do período medieval: Alguns críticos argumentam que Pernoud, em sua missão de desmistificar a Idade Média, ocasionalmente minimiza aspectos negativos do período
- Foco na nobreza: O retrato de poder feminino é válido principalmente para mulheres nobres; camponesas e mulheres comuns tinham realidades muito diferentes
- Limitações das fontes sobre vida pessoal: Como as fontes medievais focam em atos públicos, sabemos relativamente pouco sobre as motivações íntimas de Leonor
- Debates sobre a Segunda Cruzada: A interpretação de Pernoud sobre o papel de Leonor na cruzada é contestada por alguns historiadores
- Relação com a cultura trovadoresca: A extensão exata da influência de Leonor no amor cortês ainda é debatida
Resposta aos Críticos:
É importante notar que as críticas a Pernoud geralmente não questionam sua precisão factual, mas sim suas ênfases e interpretações. Isso é saudável no debate historiográfico. O que permanece incontestável é que Pernoud:
- Trabalhou com fontes primárias de forma meticulosa
- Identificou corretamente as estruturas de poder medieval
- Demonstrou convincentemente que mulheres nobres medievais tinham mais agência do que tradicionalmente reconhecido
A Resenha em Detalhes: O que o Livro Realmente Oferece
Agora, vamos detalhar o conteúdo específico da obra, capítulo por capítulo, para que você saiba exatamente o que encontrará ao abrir este livro.
Estrutura Narrativa:
Pernoud organiza a biografia de Leonor de forma cronológica, mas com análises temáticas inseridas quando apropriado. A estrutura é:
Parte I: A Herdeira da Aquitânia (1122-1137)
- Contexto do Ducado da Aquitânia no século XII
- A cultura occitana e sua diferença em relação ao norte da França
- A educação de Leonor e a preparação para governar
- O sistema de herança no sul da França que permitia sucessão feminina
Parte II: Rainha da França (1137-1152)
- O casamento com Luís VII e as implicações políticas
- O papel de Leonor na corte francesa
- A Segunda Cruzada: participação, desafios e consequências
- O processo de anulação do casamento: aspectos legais e políticos
Parte III: Rainha da Inglaterra (1152-1189)
- Casamento com Henrique II e a criação do Império Angevino
- Leonor como governante da Aquitânia
- Patronagem cultural e desenvolvimento da cultura cortês
- Conflitos com Henrique II e a rebelião dos filhos
- Prisão e limitação de poder
Parte IV: A Matriarca (1189-1204)
- Liberação e papel durante o reinado de Ricardo Coração de Leão
- Regência e governo durante as ausências do rei
- Negociações de paz e alianças matrimoniais
- Últimos anos e legado
Insights Específicos que o Livro Oferece:
- O poder econômico da Aquitânia: Pernoud detalha como a riqueza do ducado (vinhos, sal, comércio atlântico) dava a Leonor poder real, não apenas simbólico
- O contraste jurídico: Análise comparativa entre o direito costumeiro occitano (mais favorável às mulheres) e o direito do norte da França
- A Segunda Cruzada sob nova perspectiva: Pernoud examina o papel de Leonor não como uma distração frívola (como alguns cronistas misóginos sugeriram), mas como líder de um contingente significativo de vassalos aquitanos
- A cultura trovadoresca: Discussão fundamentada sobre como a corte de Leonor foi um centro crucial para o desenvolvimento da literatura e da poesia medieval
- O conflito Plantageneta: Análise das complexas dinâmicas familiares entre Leonor, Henrique II e seus filhos, situando-as no contexto das disputas sucessórias da época
- Leonor como estrategista política: Demonstração de suas habilidades diplomáticas, especialmente em seus anos finais
Destaques de Fontes Primárias Analisadas:

- Carta de Leonor ao Papa Celestino III (1193): Pleiteando a libertação de Ricardo Coração de Leão
- Documentos administrativos da Aquitânia: Demonstrando sua gestão direta do ducado
- Crônicas sobre a Segunda Cruzada: Análise crítica dos diferentes relatos e seus vieses
- Poesias de Bernart de Ventadorn: Trovador associado à corte de Leonor
- Registros da anulação do casamento: Documentos eclesiásticos revelando os argumentos legais usados
Tabela: Principais Eventos na Vida de Leonor Segundo Pernoud
| Ano | Evento | Significância Histórica |
|---|---|---|
| 1122 | Nascimento | Herdeira do ducado mais rico da França |
| 1137 | Casamento com Luís VII | Torna-se Rainha da França aos 15 anos |
| 1147-1149 | Segunda Cruzada | Participação controversa mas significativa |
| 1152 | Anulação e novo casamento | Torna-se Rainha da Inglaterra |
| 1173-1174 | Revolta dos filhos | Apoio aos filhos contra Henrique II |
| 1174-1189 | Prisão/Confinamento | 15 anos de poder limitado |
| 1189 | Liberação | Ricardo Coração de Leão torna-se rei |
| 1190-1194 | Regência | Governa Inglaterra durante ausência de Ricardo |
| 1204 | Morte | Aos 82 anos, em Fontevraud |
Leonor, as Mulheres Medievais e a Desmistificação Necessária
Um dos aspectos mais valiosos da obra de Pernoud é como ela usa Leonor para iluminar a condição feminina medieval de forma mais ampla. Este não é apenas um livro sobre uma rainha excepcional – é uma janela para entender como o poder feminino funcionava no século XII.
Lições sobre a Idade Média que o Livro Ensina:
- Direitos de propriedade: Mulheres nobres medievais frequentemente herdavam e controlavam propriedades extensas. O sistema feudal, apesar de suas limitações, reconhecia esse direito.
- Participação política: Rainhas e nobres femininas participavam de conselhos, tomavam decisões administrativas e conduziam negociações diplomáticas.
- Educação feminina: Contrariando o mito, mulheres nobres recebiam educação sofisticada, incluindo latim, literatura, música e administração.
- Mecenato cultural: Mulheres eram fundamentais como patronas das artes, sustentando poetas, músicos e artistas.
- Agência matrimonial: Embora casamentos fossem políticos, mulheres nobres tinham graus variados de influência nessas decisões, e o direito canônico exigia consentimento.
O Que Mudou Após a Idade Média:
Pernoud argumenta, convincentemente, que o Renascimento e a Era Moderna frequentemente reduziram o poder feminino em comparação com o período medieval:
- Direito Romano redescoberto: Mais restritivo às mulheres que o direito consuetudinário medieval
- Centralização monárquica: Reduziu o poder de nobres locais, incluindo mulheres
- Reforma e Contrarreforma: Impuseram visões mais restritivas sobre papéis femininos
- Código Napoleônico (1804): Retrocesso massivo nos direitos de propriedade femininos
Esta é uma das teses mais controversas mas também mais fundamentadas de Pernoud: a história dos direitos femininos não é linear e progressiva.
Por Que Este Livro Importa Hoje
Décadas após sua publicação original, “Eleanor of Aquitaine” de Régine Pernoud permanece essencial por várias razões:
Relevância Acadêmica:
- Metodologia exemplar: O trabalho de Pernoud com fontes primárias continua sendo modelo para historiadores
- Influência historiográfica: Inspirou gerações de pesquisadores sobre história das mulheres
- Contraponto necessário: Oferece alternativa fundamentada a narrativas simplistas sobre a Idade Média
Relevância Cultural:
- Desmistificação: Combate preconceitos sobre a Idade Média que ainda permeiam a cultura popular
- Representação feminina: Mostra que mulheres poderosas na história não são anomalias recentes
- Complexidade histórica: Ensina que sociedades passadas não podem ser julgadas por dicotomias simplistas de “bom/mau”, “progressista/retrógrado”
Relevância Pessoal para o Leitor:
- Inspiração: A história de Leonor é genuinamente inspiradora, mostrando resiliência, inteligência política e longevidade de influência
- Perspectiva: Oferece compreensão mais nuanceada sobre gênero, poder e história
- Conhecimento sólido: Fornece base confiável para entender o século XII europeu
Qual será a sua Próxima Leitura Essencial?
Chegamos ao final desta análise aprofundada, e você, leitor apaixonado pela história medieval, agora possui todas as informações necessárias para decidir se “Eleanor of Aquitaine” de Régine Pernoud merece um lugar em sua estante – e posso afirmar, sem hesitação, que merece.
Este livro representa o que há de melhor na historiografia medieval: rigor documental, narrativa envolvente, análise crítica e compromisso com a desmistificação. Ao escolher esta obra, você não está apenas lendo sobre uma rainha fascinante; você está acessando um método de compreensão histórica que o capacitará a ler outras obras sobre a Idade Média com olhar mais crítico e informado.
Para nós, amantes da história medieval, cada livro é uma escolha. Podemos optar por obras que perpetuam mitos e simplificações, ou podemos escolher aquelas que nos desafiam, que nos forçam a questionar pressupostos e que nos oferecem conhecimento fundamentado em evidências. Pernoud pertence firmemente à segunda categoria.
A pergunta que fica é: você está pronto para desafiar tudo o que pensava saber sobre a Idade Média? Porque Leonor da Aquitânia, através da pena meticulosa de Régine Pernoud, certamente fará isso com você.
Que sua próxima leitura seja tão transformadora quanto a história desta rainha que, oito séculos depois, ainda nos ensina sobre poder, resiliência e a complexidade fascinante do passado humano.
Perguntas e Respostas

Leonor da Aquitânia realmente teve tanto poder quanto o livro sugere?
Sim, e as evidências documentais comprovam isso de forma inequívoca. Leonor não apenas herdou e governou o Ducado da Aquitânia – um dos territórios mais ricos da Europa medieval – como também participou ativamente de decisões políticas tanto na França quanto na Inglaterra. Os registros administrativos mostram sua assinatura em documentos oficiais, suas cartas diplomáticas demonstram negociações diretas com outros governantes, e crônicas contemporâneas (mesmo aquelas escritas por cronistas misóginos) confirmam sua influência. O livro de Pernoud não exagera o poder de Leonor; na verdade, a historiografia tradicional é que o subestimou por séculos.
O livro é adequado para quem nunca leu nada sobre a Idade Média?
Absolutamente. Régine Pernoud possui um talento raro de escrever simultaneamente para especialistas e iniciantes. O livro fornece todo o contexto histórico necessário para compreender os eventos, explica as estruturas políticas e sociais do período medieval de forma clara, e não pressupõe conhecimento prévio. Se você é um leitor iniciante, encontrará uma excelente introdução ao século XII europeu. Se já é um entusiasta da história medieval, encontrará análises sofisticadas e interpretações fundamentadas que enriquecerão seu conhecimento. A narrativa cronológica e fluida torna a leitura acessível, enquanto a profundidade analítica satisfaz leitores mais exigentes.
Por que Régine Pernoud é considerada uma autoridade em história medieval?
Pernoud dedicou mais de seis décadas ao estudo meticuloso de fontes primárias medievais, especialmente aquelas relacionadas a mulheres do período. Formada pela École des Chartes em Paris – instituição especializada em arquivística e paleografia – ela tinha acesso direto aos arquivos medievais franceses e a expertise para interpretá-los corretamente. Ao contrário de historiadores que teorizam sobre a Idade Média a partir de leituras secundárias, Pernoud trabalhava diretamente com documentos originais: cartas, registros administrativos, crônicas contemporâneas. Sua metodologia rigorosa, combinada com décadas de pesquisa e numerosas publicações acadêmicas, estabeleceram-na como uma das mais respeitadas medievalistas do século XX. Suas obras continuam sendo referências essenciais.
O livro romantiza a Idade Média ou Leonor da Aquitânia?
Esta é uma crítica que alguns fazem a Pernoud, mas ela merece nuance. Pernoud não romantiza a Idade Média; ela a desmistifica. Há uma diferença crucial. Romantizar seria inventar virtudes inexistentes ou ignorar problemas reais. Pernoud, por outro lado, combate os preconceitos iluministas e renascentistas que pintaram a Idade Média como uniformemente sombria e opressiva. Ela demonstra, com evidências documentais, que a realidade medieval era complexa e que em certos aspectos – especialmente direitos de propriedade para mulheres nobres – o período oferecia mais oportunidades do que eras posteriores. Quanto a Leonor, Pernoud apresenta tanto seus triunfos quanto seus fracassos, suas habilidades políticas e suas limitações, sempre fundamentada em fontes. O resultado não é romance, mas história honesta.
Quais outras obras devo ler após este livro para aprofundar o tema?
Para continuar sua jornada de conhecimento sobre Leonor e o século XII, recomendo uma abordagem estratificada. Se quiser mais sobre Leonor especificamente, “Eleanor of Aquitaine: A Life” de Alison Weir oferece uma narrativa biográfica ainda mais detalhada, embora com menos ênfase analítica. Para entender o contexto mais amplo da cultura cortês e trovadoresca, “Eleanor of Aquitaine and the Four Kings” de Amy Kelly é excelente. Se desejar explorar outras mulheres poderosas medievais pela perspectiva de Pernoud, leia “Blanche of Castile” (sobre a neta de Leonor) e “Women in the Days of the Cathedrals”. Para compreender o sistema feudal e a sociedade do período, “A Sociedade Feudal” de Marc Bloch é fundamental. E para continuar a desmistificação da Idade Média, “Those Terrible Middle Ages!” da própria Pernoud é uma ótima leitura.
As fontes usadas por Pernoud estão disponíveis para leitores interessados?
Muitas das fontes primárias utilizadas por Pernoud estão publicadas em edições críticas e algumas até têm traduções modernas, embora frequentemente em francês ou inglês. Crônicas como as de Guilherme de Tiro estão disponíveis em traduções. Documentos administrativos e cartas, no entanto, geralmente permanecem em arquivos e em publicações especializadas. Para o leitor brasileiro interessado, o valor do livro de Pernoud está exatamente em fazer essa mediação: ela já realizou o trabalho imenso de localizar, autenticar, traduzir e interpretar esses documentos. Você está recebendo o resultado de décadas de pesquisa arquivística condensado em uma narrativa acessível. Para quem deseja verificar as fontes, Pernoud fornece referências detalhadas em notas, permitindo que estudiosos mais avançados rastreiem os documentos originais.
Este livro mudou a historiografia sobre Leonor da Aquitânia?
Sim, significativamente. Antes de Pernoud e de outras historiadoras de sua geração, Leonor era frequentemente retratada de forma superficial ou através de lentes moralistas: ou como “femme fatale” perigosa, ou como figura decorativa sem poder real. Pernoud foi uma das primeiras a sistematicamente usar fontes primárias para demonstrar que Leonor era uma governante competente, uma estrategista política habilidosa e uma figura central – não periférica – nos eventos do século XII. Seu trabalho inspirou gerações subsequentes de historiadores a levarem Leonor a sério como figura histórica e a estudarem o poder feminino medieval com mais atenção. Hoje, nenhum estudo sério sobre Leonor pode ignorar as contribuições de Pernoud. Ela não apenas escreveu sobre Leonor; ela ajudou a redefinir como entendemos as mulheres medievais em geral.
